segunda-feira, 23 de março de 2009
Meia-entrada e o direito dos jovens à cultura e ao lazer
Luisa Rosati da história UFRJ e Natália Russo da EBA UFRJ
Um projeto de lei tramita neste momento na câmara em regime de urgência buscando restringir o direito à meia-entrada. Essa lei vai afetar duramente a juventude brasileira. Hoje, já não é fácil poder freqüentar os eventos culturais em nenhum local do país. Os ingressos são sempre caros demais, e mesmo a meia-entrada é muitas vezes inacessível. A cultura se transforma cada vez mais em instrumento das empresas para ganhar dinheiro. Não há espaço nem incentivo para a juventude se expressar culturalmente de forma independente dos interesses do mercado. O acesso à cultura é restrito, até porque a sua própria criação encontra-se nas mãos do empresariado. É a mercantilização de algo que deveria servir para a livre expressão de nossos sentimentos, anseios e reflexões. Agora então, uma parcela maior ainda dos jovens vai ser totalmente excluída desses espaços.
Em um período de crise econômica os empresários do entretenimento estão muito preocupados com a redução da sua margem de lucro. Assim, atuam com seus lobbys no congresso para desferir mais esse ataque. Querem que a juventude pague por uma crise econômica que ela não criou. A cultura e a educação são os temas mais negligenciados pelos governos e com certeza serão os primeiros a sofrerem ataques e cortes. A verba da cultura vem sendo pífia a muitos anos. O governo Lula já anunciou uma revisão no orçamento votado para 2009. Não será surpresa alguma um corte significativo nessas pastas. Os trabalhadores da cultura foram protagonistas de uma greve de mais de 100 dias denunciando o descaso com a cultura do país.
A juventude que precisa da cultura como complementação acadêmica e para sua formação humana e universal, não deixará que as restrições culturais e a alienação imposta pela mídia e governos venham tolir sua capacidade de luta. O movimento estudantil demonstrou que é capaz de defender esse direito histórico que apenas a ditadura teve a cara de pau para retirar. A todos aqueles que contribuem para a repressão às manifestações artísticas e culturais, a todos aqueles que se utilizam de belos nomes como democracia e igualdade, mas enquanto a reforma agrária não sai e o desemprego aumenta pedem calma mas colocam com urgência a redução dos direitos. A eles diremos bem alto que nossa resposta é a luta!
Entenda o que está ocorrendo?
O Senado aprovou, no final de 2008, um projeto que visa restringir o direito à meia-entrada em cinemas, teatros, estádios de futebol, casas de show, etc. O projeto de lei está agora tramitando na Câmara dos Deputados (PL 4751/08), em caráter de urgência. Assim que aprovado, será necessária apenas a assinatura do presidente Lula para que entre em vigor.
O projeto consiste em restringir em 40% a quantidade de ingressos vendidos pela metade do preço (a estudantes e idosos) em todos os estabelecimentos culturais. Assim, se, por exemplo, uma sala de cinema tem 100 lugares, só 40 poderão ser vendidos por meia. Depois de uma árdua disputa entre estudantes e idosos pelos lugares, muitos ficarão de fora, e terão que pagar inteira ou desistir do programa. No entanto, se reduzir a 40% já vai nos prejudicar muito, é fácil perceber que o problema, na prática, vai ser ainda maior, pois ficaremos à mercê dos interesses dos donos dos estabelecimentos, e nada garante que eles vão de fato respeitar essa cota.
Além disso, o projeto contém outros pontos, todos no sentido da restrição do direito. Um deles libera os estabelecimentos da obrigatoriedade da venda de meia-entrada de todos os tipos de ingresso. Áreas ou cadeiras especiais, por exemplo, não estão incluídas na lei e não será obrigatória a venda de meia-entrada para elas. Brechas como essa abre precedentes para uma perda ainda maior de nosso direito. Proíbe também o acesso a meia-entrada para estudantes de pré-vestibulares.
O projeto revoga, ainda, a Medida Provisória n° 2208, de 2001, que acabava com o monopólio da UNE e de suas entidades estaduais sobre a emissão das carteirinhas. Hoje podemos comprar meia-entrada apresentando apenas a carteira de nossa escola, faculdade ou curso, e sem pagar nada por isso, a partir da aprovação dependeremos da UNE e teríamos que pagá-la por isso assim como era antigamente. O projeto, portanto, além de restringir o direito à meia-entrada, dificulta também a forma com que os estudantes têm acesso a esse direito. Um outro grande problema é que agora uma entidade que nunca passa nas nossas salas de aula, defende os projetos do governo para a educação passaria a ter um aparato completamente desproporcional ao seu peso real na base enquanto movimento estudantil. A UNE está mais próxima de uma “fábrica de carteirinha” do que de uma entidade que organiza os estudantes para defender seus direitos. A entidade, apesar de ter se declarado contra a restrição dos 40%, esteve presente em toda a negociação do projeto. Seu objetivo é recuperar o monopólio sobre a emissão das carteirinhas, atividade que rende muito dinheiro. Esteve afastada das principais lutas estudantis dos últimos períodos, perdeu toda e qualquer independência em relação ao governo, e agora quer ganhar dinheiro em cima de nosso direito.
Estamos vendo um direito conquistado há cerca de 60 anos pelo movimento estudantil brasileiro ser ameaçado. A meia-entrada só foi conquistada porque estudantes lutaram há muito tempo para que várias gerações pudessem ter acesso à cultura e ao lazer. Também nossa geração já mostrou que é possível vencer, ainda que o inimigo seja poderoso, quando travamos grandes e vitoriosas lutas por todo o país durante os últimos dois anos. A ocupação da reitoria da USP que derrotou os decretos do Serra, a conquista de dois bandejões na UFRJ, a grande vitória ideológica do movimento estudantil contra o REUNI demonstraram o caminho. Mais uma vez, sabemos que só conseguiremos garantir a meia-entrada através de nossa luta. Defender nosso direito, travando uma grande luta em todo o país, e exigindo de Lula que não sancione essa lei é a tarefa de todo o movimento estudantil combativo, que não mudou de lado, e não deixou de lutar.
Encontro das Artes 3 de abril de 2009
segunda-feira, 23 de junho de 2008
A Cultura do Privado
A disputa pela posse do imóvel invadido pelo Canecão, Bingo Botafogo (hoje Amoedo Room) e Bar e Restaurante, se econtra hoje na sua fase mais aguda. Do imóvel localizado na Lauro Miller nº1, anexado ao Campus da Praia Vemelha da UFRJ, a nossa Universidade detém a propriedade legal mas não a posse. A História se arrasta a 41 anos: esses terrenos foram doados pela UFRJ à ASCB (Associação dos Servidores Civis do Brasil, hoje uma Associação de Faixada onde se escondem o Canecão e Bingo) em 1950 com finalidade cultural, mas bastou 17 anos para que a ASBC perdesse legalmente a posse do terreno para a UFRJ por arrendar para terceiros e usos espúrios, Decreto-lei de 1967.
Se a UFRJ não está empossada devidamente, isso tem raíz nos ?nossos? Poderes Corruptos: à exemplo do Governador Sérgio Cabral (apoiado irrestritamente pelo Lula, diga-se de passagem), que cresceu politicamente fazendo Bailes para a terceira idade no Canecão, e está amarrado até o pescoço na máfia Canecão-Bingo-Amauta-Poder Judiciário-Globo-Artistas Famosos.
Eis que alguma coisa parece andar no nosso país!!!
> Dia 04 de junho foi julgado o ultimo processo que impedia a posse da UFRJ sobre o imóvel da Rua Lauro Muller nº 1, ocupado ilegalmente pelo Bingo. O Bingo perde a causa.
> No dia 13 de junho, a UFRJ obteve uma vitória na luta pela reintegração de posse do imóvel da Rua Lauro Muller, nº1, onde funcionou a antiga sede da Associação dos Servidores Públicos do Brasil (ASCB) e, posteriormente, o Bingo Botafogo.
> A ASCB (Associação dos Servidores Civis do Brasil), que litiga contra a UFRJ pelo terreno, entretanto, interpôs novo recurso; desta vez, com o objetivo de suspender o direito ganho pela universidade. O recurso está em fase de apreciação e julgamento.
> Assim se faz a 41 anos, desde que a UFRJ deteve novamente o imóvel: a rede de influência da máfia-cheia-de-capital chega aos juízes e desembargadores, e estes ignoram todos os julgamentos ganhos pela UFRJ em 1967, 1988, 2002, entre muitos outros, e qualquer recurso em andamento das empresas privadas representadas pela ASCB parece significar definitivamente: a UFRJ nunca porá as mãos em lugar onde se multiplica dinheiro.
TUDO É DECIDIDO, AO NADA SE DECIDIR.
Este é um momento histórico para a comunidade acadêmica e a sociedade debaterem e decidirem: o que a Cultura do Privado faz com nosso país? E isso é benéfico ou maléfico para o povo? No caso da UFRJ, pelo menos está claro: um local que deveria servir para a democratização do espaço, do acesso à cultura, à oportunidade, ao que tem de melhor no popular, hoje é lugar exclusivo de ricos e famosos, de lavagem de dinheiro e de lançamento de poucos artistas completamente acomodados a essa cultura. De fato, é uma Cultura Para Poucos.
O mais curioso a se observar, no entanto, é o outro lado da moeda: quando numa ocupação de sem-teto, sem-terra, um bom advogado consegue liminar de reintegração de posse, em 24 horas vem a tropa-de-choque, polícia, Exército, Marinha, Aeronáutica para garantir o direito de propriedade, e imediatamente ocorre a reintegração de posse da propriedade privada.
Cabe uma letra do Chico Buarque, que ironicamente é sustentado por todo esse esquema podre:
"Esse silêncio todo me atordoa/ Atordoado eu permaneço atento/ Na arquibancada pra qualquer momento/ Ver emergir o monstro da lagoa/ De muito gorda a porca já não anda (Cálice!)/De muito usada a faca já não corta (Cálice)/ Como é difícil, pai, abrir a porta..."
terça-feira, 20 de maio de 2008
Rede globo: a hipocrisia em horário nobre!
Por Mariana Vedder (UFF/Observatório da Indústria Cultural)
Eu acredito é na rapaziada
Que segue em frente e segura o rojão
Eu ponho fé é na fé da moçada
Que não foge da fera e enfrenta o leão
Eu vou à luta com essa juventude
Que não corre da raia a troco de nada
Eu vou no bloco dessa mocidade
Que não tá na saudade e constrói
A manhã desejada
Aquele que sabe que é negro o coro da gente
E segura a batida da vida o ano inteiro
Aquele que sabe o sufoco de um jogo tão duro
E apesar dos pesares ainda se orgulha de ser brasileiro
Aquele que sai da batalha
Entra no botequim, pede uma cerva gelada
E agita na mesa logo uma batucada
Aquele que manda o pagode
E sacode a poeira suada da luta e faz a brincadeira
Pois o resto é besteira
E nós estamos pelaí...
Gonzaguinha
Era final de período e os militantes do Movimento Estudantil das Universidades Federais de todo o Brasil estavam preocupados com o futuro de suas instituições de ensino. Mais um decreto do governo Lula, e que dizia expandir vagas, democratizar o ensino, atender aos anseios da sociedade. Porém, na verdade, só pretendia aprofundar ainda mais o sucateamento dessas universidades. Muitas já em estado totalmente precário.Uma noite dessas, me preparando para sair de casa, a televisão estava ligada. Bem no horário da novela das oito. Eis que vejo um grupo de pessoas (?) que pareciam estudantes/militantes incendiando uma escola e chamando a polícia para a briga. Pensei: Mas o que é isso? É o apocalipse? Não, não era o apocalipse, era uma "invasão" da reitoria da universidade particular Pessoa de Moraes, que tem como dona a personagem de Susana Vieira. Lembrei-me de um outro capítulo no qual José Wilker, importante e conhecido pedagogo da trama, durante uma conversa aparentemente informal, dava "aulas" sobre qual a solução para a educação no país. E adivinham o que ele disse? Claro, que a solução era privatizar, promover parcerias com a iniciativa privada, pois tudo o que é público não vai para frente. Pode-se claramente notar que isso não é coincidência.
Mitos e ideologias sobre o funk carioca
Nos anos 2000 ocorre uma inovação que coloca o “funk carioca” nos “playlists” de descolados mundo a fora. O funk incorpora a batida do atabaque do candomblé ao eletrônico e consolida sua identidade com o som do “tamborzão”. Junto com essa renovação há uma outra novidade, sutil, mas arrebatadora: a entrada das mulheres cantando e compondo funk. Se antes elas estavam apenas atrás dos MC’s dançando coreografias sensuais, agora elas empunham o microfone cantando letras bem mais que sensuais.
A performance altamente erotizada das dançarinas agora é voz. Ela diz: “Eu vou pro baile sem calcinha”, “tá ardendo, tá arranhando, eu tô agüentando” enquanto outras dançam lotando os salões de casas noturnas da classe média, as quadras dos bailes de morros e comunidades, principalmente depois da abertura da televisão para as funkeiras que hoje são “celebridades”.É claro que já havia mulheres MC’s, algumas de grande sucesso, porém não com tamanha visibilidade. Tínhamos Willian e Duda, Cidinho e Doca, Claudinho e Buchecha, MC Marcinho, mas nenhuma menina tão famosa quanto eles. Hoje, nas seqüências das rádios e palcos vemos Os Hawaianos, Juliana e as fogosas, Os Magrinhos, Gaiola das Popozudas, Deise Tigrona com suas letras e coreografias reproduzidas por crianças, adolescentes e adultos.
A mudança de estilo na batida e nas próprias letras dos funks propiciou essa nova atitude. As composições românticas com letras extensas e melódicas deram lugar às repetições quase minimalistas de frases ou palavras incitadoras, ao mesmo tempo em que os vínculos nas relações amorosas e sexuais também iam mudando.
A mulher que canta e dança o funk atual é a mesma que está inserida no contexto da “pegação” diária, da valorização das formas femininas por meio de micro shorts e saias que levantam ao ritmo da dança.
Longe de tentar reproduzir um discurso moralista, percebo uma trajetória que nos leva à ambígua situação das mulheres contemporaneamente. Nós conseguimos maior visibilidade, inserção em diversos locais sociais antes totalmente fechados às mulheres, conquistamos liberdade sexual, o direito de escolhermos nossos parceiros ou parceiras sexuais/afetivos. E continuamos conquistando...
Um lugar mais nobre no palco, o estilo de canto gritado, a possibilidade de falar o que e como queremos. O grupo Gaiola das Popozudas canta “Eu vou pro baile sem calcinha, agora eu sou piranha e ninguém vai me segurar!”. A explosão de expressão física e verbal de sexualidade parece esconder uma outra forma de dominação sobre as mulheres.
Os Hawaianos dizem: “Mina cheia de marra de bam se eu te pego eu te escangalho, na hora do prazer sou eu que faço o trabalho” reafirmando seu poder masculino enquanto elas, para se mostrarem livres dessa dominação querem decidir quando e com quem vão fazer sexo. Contudo nós vemos que essa sexualidade compulsória é também uma troca de posições, já que eles não as possuem forçosamente, mas elas (se) dão, realizando seus fetiches.
O nome Gaiola das Popozudas é um exemplo da necessidade de exibição, estão expostas entre grades para serem vistas, consumidas. Deise “tigrona” incorporou a seu nome o apelido de animal sensual, embora sua postura e aparência nem sejam compatíveis com esse estereótipo. Talvez Deise nem mesmo se sinta uma tigrona, ou uma tigresa, mas aprendeu que há uma necessidade de mercado que a impede de ser somente MC Deise (como ela se apresentava anos atrás). Deise também é a autora do funk “Injeção”, outro exemplo do recurso de fetiche, com a brincadeira de médico, e o sadomasoquismo:
Sinto uma dor
Quer me dar injeção
Olha o papo do Dr.:
Injeção dói quando fura,
Arranha quando entra
Doutor, assim não dá,
Minha poupança não agüenta!
Tá ardendo,mas tô agüentando,
Arranhando,mas tô agüentando
Tá ardendo eu tô agüentando!
Arranhando, eu tô agüentando!
Percebemos, assim, que as possibilidades abertas às mulheres no meio funk as levam ao uso de seus corpos como atrativos. O erotismo dá o mote do apelo ao consumo. Seus corpos estão disponíveis em dvds piratas e originais, no youtube, e em quantos mais veículos de mídia puderem estar. É claro que essas moças não são vítimas indefesas nem estão presas a um “destino de mulher objeto”, mas sentindo-se heroínas da favela não percebem quem muitas vezes são ridicularizadas ganhando apelidos como a “mulher melancia” (do grupo do MC Créu) que em foto para capa revista (publicação comum sobre novelas e famosos) posava de costas com as mãos nos joelhos vestindo um shortinho apertado.
Postado por Observatório da Indústria Cultural
segunda-feira, 19 de maio de 2008
ABUJAMRA NA LETRAS!!!
CINEMA '68
CINEMAPara ver e rever 68
Dicas do Professor da USP Wilson H. da Silva
2001: uma odisséia no espaço (EUA, 1968)
Considerado, com justiça, um dos melhores filmes de ficção científica de todos os tempos, o filme foi dirigido, em 1968, por Stanley Kubrick. Baseado em duas obras de Arthur C. Clarke, o filme é “ousado” em todos os sentidos. Desde sua estranha forma (em seus 139 minutos, há apenas 40 diálogos) e inovadores efeitos especiais até sua intricada narrativa que analisa a evolução do Homem, desde os primeiros hominídeos capazes de usar instrumentos, até a era espacial e para muito além disso, num futuro onde o computador HAL (possível menção à IBM, cujas iniciais são as imediatamente posteriores às da máquina) controla e sabota a nave Discovery em sua missão de exploração a uma enigmática placa negra que é vista no decorrer de toda a história. O embate entre homem e máquina e o discurso humanista que contamina toda a narrativa são, evidentemente, marcas do clima existente no final da década de 1960.
Ao mestre com carinho (EUA, 1967)
Filmado no ano anterior, o filme de James Clavell, que levou o ator negro Sidney Poitier ao estrelato, só poderia ter sido feito nos Estados Unidos numa época na qual o questionamento sobre o racismo estava no olho do furação das mobilizações que sacudiam o país. Apesar de se passar num bairro operário de Londres, a saga do professor negro e dos, inicialmente, “rebeldes sem causa” estudantes, é uma metáfora (um tanto lacrimejante, é verdade) para as mudanças nas relações raciais e sociais que estavam em curso, coisa que fica particularmente evidente no conteúdo das aulas que, abandonaram o burocrático programa curricular, mergulham em temas como sexo, família, comportamento, política, classes sociais etc.
Adivinhe quem vem para jantar (EUA, 1967)
Outra inesquecível contribuição de Sidney Poitier para a história do cinema e para o debate sobre o racismo. Dirigido por Stanley Kramer, o filme gira em torno do desconfortável jantar em que a filha de um rico e liberal proprietário de um jornal de São Francisco e sua mulher são confrontados pela filha quando ela leva seu namorado (um médico negro) e os pais dele para jantar (e anunciar o casamento). A hipocrisia do discurso liberal e as contradições da racista sociedade norte-americana explodem por todos os lados, em interpretações memoráveis.
O bandido da luz vermelha (Brasil, 1968)
Marco nacional das contradições imposta pelo ano de 1968, particularmente em um país onde se vivia o aprofundamento da ditadura, o filme dirigido por Rogério Sganzerla e considerado ícone do “Cinema Marginal”, é baseado na vida do famoso criminoso João Acácio Pereira da Costa, o "Bandido da Luz Vermelha". A forma utilizada para contar a violenta trajetória de João Acácio, serve como argumento para que o então jovem diretor (com apenas 22 anos) vasculhe de uma forma ultra interessante, os bastidores da mídia sensacionalista e outras tantas mazelas que circulam em torno e na raiz da criminalidade. A bela da tarde (França, 1967)Mergulhado no sempre surpreendente (e, muitas vezes, surrealista) universo do cineasta Luis Buñuel, o filme traz Catherine Deneuve no papel de uma entediada dona de casa de classe-média que, sem maiores explicações, decidi trabalhar diariamente, das 14 às 17 horas, num bordel onde se entrega à satisfação de suas fantasias sadomasoquistas.
Barbarella (EUA, 1968)
Talvez um dos mais deliciosos “delírios” da história do cinema, o filme foi estrelado pela, na época, engajada Jane Fonda – cuja militância anti-guerra e pró direitos civis, fez com que ele ganhasse o codinome de “Jane, a vermelha”, na imprensa conservadora. Barbarella é a ultra-sexy heroína intergalática no século 41 (!!!) destinada a salvar o universo de uma guerra final. Bonnie e Clyde: uma rajada de balas (EUA, 1967)Exemplo de que os filmes sempre falam muito mais sobre o contexto de sua produção do que sobre a época que eles retratam, o filme dirigido por Arthur Penn traz Warren Beatty e Faye Dunaway nos papéis do casal de assaltantes que se tornou famoso nos anos 1930. O filme tem a “Grande Depressão” como pano de fundo e uma narrativa inegavelmente simpática em relação aos “bandidos”.
Fahrenheit 451 (França, 1966)
Rodado dois anos antes da rebelião juvenil, o filme – adaptado do romance homônimo de Ray Bradbury e dirigido por François Truffaut –, o filme se passa num futuro hipotético, no qual os livros e toda forma de escrita são proibidos por um regime totalitário, sob o argumento de que eles fazem as pessoas infelizes e improdutivas. Quando alguém é flagrado lendo é preso e "reeducado". Se uma casa tem muitos livros e um vizinho denuncia, os "bombeiros" são chamados para incendiá-la. Daí o título: “fahrenheit 451” é a temperatura necessária para incinerar o papel. O conflito se estabelece quando um destes “bombeiros” se apaixona pelos livros que deveria incendiar, é levado a rebelar-se contra o sistema que defendia e começa uma fuga que o levará a conhecer outros como ele que vivem em comunidades de “homens-livros”, que assumem, literalmente, a personalidade de uma das grandes obras mundiais para poder mantê-las vivas. Marco fundamental da crítica à industrialização e padronização da cultura e a mediocritização generalizada, o filme, em muito, ajudou a inflamar corações e mentes da época.
“If...” (Inglaterra, 1968)
Dirigido por Lindsay Anderson, em meio aos ventos rebeldes e revolucionários do Maio de 68, o filme, cuja título é “Se..” é, em muitos sentidos uma das produções culturais mais radicais que resultou daquele contexto histórico. Subvertendo completamente a típica narrativa baseada na difícil convivência da diversidade nas elitizadas escolas britânicas, o filme apresenta Malcolm McDowell (que depois seria imortalizado por seu desempenho no também “polêmico” Laranja mecânica) como líder de uma grupo de jovens que, por diversas razôes – ideológicas, sexuais, sociais etc. – se rebelam contra o sistema opressivo de sua escola. A poética radicalidade desta rebelião fez com que o filme, apesar de premiado em Cannes, tenha sofrido forte censura mundo afora.
Partner (Itália, 1968)
Realizado durante o auge do movimento estudantil de 1968, Partner é um dos filmes mais radicais do cineasta italiano Bernardo Bertolucci. Baseando-se livremente no livro “O duplo” (1846), do genial Fiódor Dostoiévski, o filme conta a história de Jacob, um estudante com idéias revolucionárias cuja existência solitária é abalada pelo aparecimento de seu duplo, que o incentiva a ter um maior engajamento político. Exemplo do que se convencional chamar de “filme-manifesto”, a obra de Bertolucci navega livre e belamente pelas teorias de Karl Marx, Sigmund Freud e Jean-Luc Godard e uns tantos outros pensadores e realizadores que marcaram a geração de 1968. A chinesa (França, 1967)Considerado um dos melhores e mais radicais filmes do cineasta francês Jean-Luc Godard, o filme é quase “profético” em relação ao Maio de 68, na medida em que coloca em cena um grupo de estudantes que planeja ações terroristas com o mesmo entusiasmo que discute temas como o “Livro Vermelho” de Mao, a Revolução Chinesa e o socialismo.
A primeira noite de um homem (EUA, 1967)
No início de 1968, os jovens do mundo inteiro ainda estavam encantados com o filme de Mike Nichols, estrelado por Anne Bancroft e Dustin Hoffman e musicado por Paul Simon e Arthur Garfunkel. Nele, o recém formado estudante volta para sua casa e família burguesas cheio das indecisões, contradições e questionamentos que tumultuavam as cabeças dos jovens de sua geração. O fato de envolver-se amorosamente com a complicadíssima Sra. Robinson e, quase que simultaneamente, com sua filha, já jogam mais lenha nesta fogueira.
A sociedade do espetáculo (França, 1967)
Concebido a partir do texto mais famoso de Guy Dubord, publicado em 1967, o filme expressa as principais idéias da Internacional Situacionista, o movimento político cultural que procurava organizar as diversas formas de vanguarda na rebelião de 68. Nele, o foco central é o papel dos meios de comunicação na massificação e dominação das sociedades modernas.
Teorema (Itália, 1968)
Considerado uma das mais radicais obras do período e uma dos filmes mais importantes do cineasta Pier Paolo Pasolini – cuja aberta homossexualidade e militância comunista o colocava no centro dos debates de 1968 –, Teorema traz Terence Stamp no papel de um estranho e inusitado visitante que, chegando à mansão de uma família burguesa – cada qual representante metafórico de uma instituição ou segmento social da Itália –, destrói todas as convenções e certezas ao seduzir, um a um, todos os seus membros: pai, mãe, filho, filha e, até mesmo, a empregada da casa, cujo final reflete a importância que Pasolini dava às camadas mais exploradas do país. No ano seguinte, Pasolini ainda realizaria Pocilga, uma visceral metáfora à rebelião juvenil de 68, na qual um dos personagens centrais rebela-se contra a sociedade, sua família burguesa, seu pai autoritário, as convenções sexuais e sociais, fazendo ecoar uma frase que, de forma radical, expressa a essência do significado de 1968 para toda uma geração: “eu matei meu pai, bebi seu sangue e tremo de alegria”.
Corações e mentes (EUA, 1974)
Documentário dirigido por Peter Davis que marcou época na história do cinema ao levar para as telas uma cáustica análise sobre a Guerra do Vietnã, a partir de uma brilhante edição de imagens da guerra e entrevistas com pessoas de ambos os lados no conflito – ex-combatentes norte-americanos e sobreviventes vietnamitas. Nas entrevistas, além de comoventes depoimentos, brotam questões que vão do racismo ao autoritarismo, da crueldade da guerra aos dramas pessoais.
Edukators (Alemanha/Áustria, 2004)
Dirigido por Hasn Weingarther e estrelado por Daniel Brühl (do também excelente “Adeus, Lenin!”), o filme acompanha as desventuras de um grupo de jovens que se autodenominam “educadores” e promovem um inusitado tipo de protesto: invadir mansões burguesas e, sem roubar nada, desarrumar toda a mobília, rearranjando-a de maneira bizarra, deixando apenas pichações e bilhetes com frases como “Seus dias de fartura estão contados” ou “Todo coração é uma célula revolucionária”. Metáfora para uma época em que a rebelião juvenil e seu inerente desejo de “reordenar o mundo” perdem-se ou distorcem-se em meio aos ataques da ideologia neoliberal, o filme promove (de forma também inesperada) o “encontro” entre estes jovens e um burguês que, arvorando-se de seu passado como revolucionário, em 1968, tenta convencê-los da inutilidade de sua rebeldia.
Hair (EUA, 1979)
Um dos mais belos e emocionantes musicais de todos os tempos. Dirigido por Milos Forman – com roteiro baseado em espetáculo homônimo da Broadway, escrito por de Gerome Ragni e James Rado, lançado exatamente em 1968 –, o filme narra a trajetória de Claude, um jovem interiorano que, de passagem por Nova York, um dia antes de se alistar para a ir a Guerra do Vietnã, conhece um grupo de hippies, com os quais passa a conviver e com quem aprende a ver o outro lado da guerra e da própria vida. O filme traz algumas música que se tornaram verdadeiros hinos da contracultura, como “Let the Sunshine In” e “Aquarius”.
Hércules 56 (Brasil, 2006)
Documentário dirigido por Silvio Da-Rin sobre a luta armada contra o regime militar, focado no seqüestro do embaixador Charles Elbrick, ocorrido na semana da Independência de 1969. Em troca do diplomata, foi exigida a divulgação de um manifesto revolucionário e a libertação de 15 presos políticos, representantes de todas as tendências que combatiam a ditadura. Banidos do território nacional e com a nacionalidade cassada, foram conduzidos ao México no avião da FAB Hércules 56.
A insustentável leveza do ser (EUA, 1988)
Baseado no belíssimo romance de Milan Kundera, o filme de Phillip Kaufman é contextualizado na Tchecoslováquia, durante a Primavera de Praga. A narrativa acompanha a trajetória de um jovem cirurgião e seu sempre conturbado relacionamento com duas mulheres, a interiorana esposa e a ousada artista plástica, que servem como metáforas para a encruzilhada em que o país se encontrava.

Panteras negras (EUA, 1995)
Dirigido pelo cineasta negro Mario Van Peebles, o filme faz um excelente resgate da história do mais radical dos grupos norte-americanos que se organizaram para combater o racismo, da sua criação, em 1967, em Oakland, na Califórnia – quando Huey Newton e Bobby Seale formam um novo partido dedicado a proteger os negros das violentas arbitrariedades dos policiais brancos – até o início dos criminosos ataques, que envolveram do FBI à elite conservador, e provocaram sua dispersão.
Os sonhado
res (EUA/França/Itália, 2003)Exemplo de como, ao voltar-se para o passado, o cinema carrega as tensões e marcas do momento em que os filmes são feitos, o belíssimo filme de Bernardo Bertolucci, narra a trajetória de Matthew, um jovem norte-americano que, em 1968, vai estudar em Paris. Lá ele conhece os irmãos gêmeos Isabelle e Theo. O complexo relacionamento entre eles tem como pano de fundo e “motor” a efervescência política, cultural e comportamental que varre as ruas de Paris durante a rebelião estudantil em maio de 1968. Embalados pelas palavras de ordem que decoravam os muros da cidade, dentre elas a que dizia “Toda petição é um poema, todo poema é uma petição”, os jovens seguem por uma trajetória cujos desdobramentos, tanto nas vidas dos personagens quando no próprio desenrolar da história, é embalada por uma das mais belas canções de Edith Piaf, “Je ne regrette rien” (Eu não me arrependo de nada), como um lembrete de que nada daquilo foi em vão.
Zabriskie Point (EUA, 1970)
Dirigido pelo italiano Michelangelo Antonioni – que também esteve à frente, em 1966, de “Blow Up”, outro marco do cinema – o filme tem como tema o movimento contracultural nos EUA na época. A narrativa e estrutura do filme, ainda profundamente marcadas pelo “calor do momento”, acompanham a história de um jovem casal, uma jovem secretária idealista e um militante radical, e seus embates com o sistema. O título faz uma referência ao monumento natural Zabriskie Point, no Vale da Morte, na Califórnia, EUA. A trilha sonora inclui músicas de alguns dos principais ícones da época, como Pink Floyd, The Youngbloods, The Kaleidoscope, Jerry Garcia, Patti Page e Grateful Dead .

